sexta-feira, agosto 04, 2006

Sem medo


Há um estreito
de melancolia
por entre as brumas
do teu olhar

Há um choro
mal contido
Nos teus lábios
de vinho
tremendo

E Há uma poesia
não dita
no chão pousada
Sem vento
e sem medo

segunda-feira, julho 24, 2006

A leveza da morte


Estou marcado e cansado
Homem velho inesperado
doente, enfermo, acusado
saio à noite encapuçado

Sombra velada cai
ameaça crua, inusitada
obituário seco e escrevinhado
Mão negra em ombro desmanchado

Da esperança quase nada
A fé em poço fundo
caida, ferida e magoada
E frio, muito frio
Dentes rangendo sem fio
Memórias vagas
d’outros dias melhores
E a leveza da morte chegando.

sexta-feira, julho 07, 2006

Revolta


Primeiro insurgiu-se o pobre.
Maltrapilho e vetusto,
cajado muleta na mão.

Depois apareceu a morte,
Cheia de sede e ambições tortas .
No ar um cheiro podre
a ratos e crianças mortas.

E os esgotos da cidade
Vomitam nas ruas
A violencia da noite em aviso.
No topo da torre norte
Ensígnias da morte
Dancam gestos macabros .

Na margem direita do rio
Seguros e calculistas
Os ricos nem um pio.
Na esquerda a revolta surgiu
(eu estava lá!)
Surge na água um archote
-Era o sinal!
Na noite a verdade
No ar a esperança:
-Luz e liberdade.

sexta-feira, junho 30, 2006

Agosto


Foi numa tarde de Agosto
Que Em frente ao tivoli
Ao virar uma esquina te vi.
Branca e esmaecida, de olhos cinzentos
Flôr murcha na palma da mão.

Esperavas alguem.
Olhos no relógio de pulso
(aquele que eu te dei)
E mão direita plantada na anca
Com ar insubordinado.
No semblante a sombra
Das horas da desilusão.

Segui em frente sem parar,
Sorriso nos lábios
Ramo de rosas na mão
Expressão alegre e bem vestida.
Certa magia no meu olhar.

quinta-feira, maio 25, 2006

quinta-feira, maio 11, 2006

Vivo?



Vivo?
Pergunto-me por vezes.
Sim, duma casa de pescador
nas ilhas Hébridas
onde escrevo esta história,
face a este mar gelado
Pergunto-me se não estarei
tambem eu morto...
Ou então é o mundo que está morto para mim
Porque me tornei demasiado
velho para ele
Eu, Jeferson B. Pritchard
Que fiz todos os meus amigos morrer
Por uma razão que não chego
verdadeiramente a recordar-me”

(Enki Bilal)

quarta-feira, maio 10, 2006

Longinquos céus.


Vi o João ontem, sabes?
Com o seu ar refreado
Com a sua vontade única
de sair voando por aí.
Vi-o com estes olhos
que tantas vezes o viram,
que tantas vezes lhe perguntaram
para onde voava.
Ao que ele respondia:- Por aí!...

Desta vez, porém,
não sei bem porquê,
senti que o “por aí”
se havia tornado
num “ para aí”.
Com destino,
com verdade.
Com vontade...
Com liberdade de procurar
em longinquos céus lilázes
amores fortes e vorazes
Como um pássaro recortado no sol
Vogando onde o horizonte acaba.

Estou de Volta


Olá amigos, estou de volta, após umas merecidas férias na ilha de Corfu.
Porei várias fotografias aqui.

sábado, abril 29, 2006

Além das cortinas...


"
Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe eu fui feliz

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais

Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz"

Chico Buarque

sexta-feira, abril 28, 2006

Quero...



Quero...
Não ser só um homem
Que ara a terra e nada mais.
Perde tempo a chorar, vive calado
E morre sózinho a lamentar

Quero,
Sêr o vento que rasga as velas
E o mar que empurra os barcos
Uma rajada de amor
Trespassando o coração.

Sêr mais, sêr muito mais...
Sêr o filho que pare os pais
A tempestade que o medo traz.
A primeira palavra de paz
Que o vento traz
No final d’uma guerra.

terça-feira, abril 25, 2006

Morte a crédito


Que estranha morte a crédito
Tenho para te entregar...

Já há muito a guardava
no meio d'outras mortes
à espera de encomenda
Neste negócio da morte
escolheste-a a crédito:
Paga-se Melhor!

Será entregue sempre a tempo
e em doses bem pequenas
Em encomendas desta ordem
Não espera o cliente.

Consome-a como queiras.
Chama-lhe vida.
Guarda-a quente e meiga
nas mãos inchadas e fáceis
Como uma chávena de café
Esperando o momento ideal

Pagarás até ao fim.
Nas prestações escolhidas: Muitas
Com juros assim, assim.
Mas pagarás.
Que aqui não vivem débitos.
Nem de morte. Mesmo a crédito.

sábado, abril 22, 2006

That's entertainment



Police car with a screaming siren
Pneumatic drill on ripped-up concrete
Baby wails, a stray dog howling
Brakes screech as lamp light blinking

That's Entertainment

Smash of glass and a rumble of boots
Electric train and a ripped up phone booth
A hot day and a sticky black tarmac
A hot day and I'm wishing I was far away

That's Entertainment

Days of speed and a slow time Mondays
Wake up at 6 AM and think about your holidays
Open window and breathe in petrol
Cold flat with damp on the walls

Yes, That's Entertainment

Two lovers kissing over screams of midnight
Two lovers miss the tranquility of solitude
Read grafitti of slash-seat affairs
Splattered walls and a kick in the balls

Is all that you get - in the name of entertainment

Paul Weller

sexta-feira, abril 21, 2006

Bom Dia.


Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço.... apenas olho
Das chaves o grande molho
Parindo um riso na farda.
Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porque bom dia?

Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha bocaa rugia)
aqui é noite, ninguem mora,
deite esse bom dia lá fora
Porque lá fora é que é dia.

Luís Veiga-Leitão