sexta-feira, junho 21, 2013

Graças várias


Carros passam ao meu lado
Pessoas com pressa me ignoram
Ninguem me vê sou invisível
Passo ao lado da tranquilidade dos outros
Passo ao lado da ansiedade dos outros
Tudo o que faço é impossível
Tudo o que faço é inutil
São dias fechados sem nada em aberto
Noticiários exentos de novidade

Os que amo não me amam
Os que admiro não me entendem
Quem me ama não me ajuda
Quem eu amo não me vê
Parece que acordei numa ressaca permanente
Não bebi ontem à noite mas a cabeça arde de dor
Quem me procura me estranha, me teçe critica infalivel
Que parece que não estou.  Que fechei para balanço.

E de bom, se algo aparece,  outra coisa vem
Abafa, consome, e me faz esquecer
Do vinho, das flores, o sol, e a brisa leve
Que me traz memória de alfazema
E cheiros de mulher , sons de sorrisos e graças várias
Ah... as graças várias.
Que me acordam de manhã
Mesmo quando ao meu lado não estás
Vendaval de beija-flor, caricias de meia noite

Seis da manhã, é cedo e não me canso
É meia noite e não tenho vontade de dormir
Sempre ao teu lado mesmo quando não estou ao teu lado.


segunda-feira, dezembro 03, 2012

Lambendo as feridas



Acordou seco,  surpreso e atoordoado
Era mais um dia, igual a tantos outros
Mais um dia, sem novidades
sem boas, nem más notícias.
Só a neve lá fora surpreendia.

A custo ergueu-se o café recusou
No espelho se olhou, nuvens negras
Por baixo dos olhos. Não fez a barba.
A custo comeu, começou o seu dia
Por vezes calmo, por vezes triste.
Um gato negro lambendo as feridas.

domingo, outubro 09, 2011

Sonho


Contigo sinto que é o momento
sinto assim uma inspiração
uma inspiração de epopeia
que de fato tu és a minha alma gémea
e como o sonho é grande
grande tem que ser tambem a realidade
digamos que acho saudavel nos beliscarmos de vez em quando
para ter a certeza de que não estamos sonhando

quinta-feira, setembro 29, 2011

Pedra Filosofal




Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

Antonio Gedeão

quinta-feira, setembro 15, 2011

Lentamente passa a noite



Na manhã que escolheste partir
Acordei vestido, calçado,mal dormido
Levaste o meu carro, minha carteira
Até mesmo o meu fato favorito esfaqueaste
E eu só, na cama vendo o sol caindo do céu
Não querendo abrir a carta,
mas no fim abrindo-a mesmo
E lendo estas duas palavras....

Amor, adeus
Lentamente passa a noite
Ao meu lado o esboço do teu corpo
Como o mapa de uma terra proibida
Eu traço os espectros dos teus ossos
Com a minha mão tremendo.
Negra é a minha noite
Mais negro o meu dia
Devo ter estado cego
Fora de mim
Nunca vislumbrei os sinais
Como vai?
Vai mal.
Vai lentamente.


Lentamente passa a noite
Dez dias só, dez noites só
Vejo a lua cortar-se nova
até que a lua se torna navalha
E corta a pele dos meus pecados
para teu conforto.
Conheço um céu,
Amor conheço um inferno
Cabeça nas mãos
às voltas na cama
Nunca consigo esquecer as palavras
" Partirei, sozinha um dia"
Eu ri, conferi o teu pulso
E disse, amor...

Vai lentamente pela noite
O tempo tudo remedia (só não a dor)
E acordo contigo  ali sentada
Cortando pontas do teu cabelo
Cantando uma musica sem sentido
Mas não faz mal, não importa.
Querida perdoa-me
Por toda a tristeza.
Abraço um espaço vazio
E a tua musica lentamente esmaece.
Onde vai?
Vai a algum lugar
Sozinha como a noite.

E escura como ela

Mas não és tu quem chora sem parar
Dez dias só, dez noites só
Desde que me deixaste amor.


Adaptado de uma canção de Nick Cave

terça-feira, setembro 13, 2011

Máquina assassina

Eu sou a máquina assassina
Esmaga a estrada
Empurra o vento
Sou sangue, ar, calor
Desejo crescendo por ti

Eu sou o ventre do submundo
Destrói lágrimas
Devora esperança
Sou raiva, ira e dor
Tremendo sem fim por ti

Eu sou o navio expectante
Cruza o oceano
Corta as ondas
Sou tempo, espera,suor
Esperando sempre por ti

Eu sou o mar tremendo
Abraça a praia
Afaga as ondas
Sou vida, movimento, azul
O meu sal só para ti

Eu sou o teu braço, tua mão
Voa sobre um piano
Treme de saudade
Sou música, som, amor
Sou teu, por fim junto de ti.

domingo, setembro 04, 2011

Satisfeito (Mark II by Lucio Ferreira)

«Acordei esta manhã satisfeito.

Pálido, bem dormido e bélico.

Pensei em ti, franzi, relaxei, sorri.


Levantei-me num pulo, saltei

da cama para o chuveiro, e duro

A barba com lamina doce desfiz.


Sem cortes, defeitos

Só com água e espelho te quis.

Na janela sonhei e no mundo te fiz.


Eu aqui, tu ali e nós no reflexo.

Palhaços no espelho sorrindo

Várias perspectivas se abrindo.»


Tirado daqui